Dia do DJ | É possível ser DJ sem seguir o padrão? Artistas contam suas experiências!

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Foto por Thiago Xavier - Image Dealers | Eli Iwasa

Ser DJ é o sonho de muitos jovens, mas ao começar na profissão, os amantes da música logo se deparam com um perfil de certa forma padronizado de artistas no mercado da música eletrônica. Os artistas são na maioria homens, jovens, brancos e heterossexuais, que dominam tanto os estúdios de produção musical quanto os line ups de festas e festivais pelo Brasil.

Esse cenário vem se modificando ao longo dos últimos anos e, cada vez mais, a diversidade começa a ganhar força, seja por questões de gênero, raça ou orientação sexual, mas ainda estamos longe de ver uma igualdade dentro da cena eletrônica.

Vale lembrar que, quando crianças e jovens veem alguém semelhante a eles serem bem-sucedidos em suas profissões, o bom exemplo serve como incentivo para que eles acreditem que é possível chegar lá, por isso é tão importante ter pessoas de diferentes perfis virando DJs de sucesso.

Resolvemos então bater um papo com alguns artistas que já encararam o mercado e conseguiram se destacar ou que ainda estão no processo de lutar pelo seu espaço, e perguntamos o que eles aprenderam ao longo dos anos e podem compartilhar conosco:

Eli Iwasa

Eli Iwasa é certamente uma das maiores inspirações para as DJs mulheres no Brasil, seja tanto pelo talento e habilidades de discotecagem quanto pela sua história em diversas frentes da cena eletrônica. Foi promoter do club Lov.e por seis anos e atualmente é sócia do Caos e Club 88, ambos em Campinas.

Durante a pandemia, Eli apresentou o quadro E.las no canal da Twitch da Só Track Boa, onde conversou com diversas mulheres que representam a cena: “O maior aprendizado que tive nesses bate-papos do E.las é que somos muito fortes juntas, e que também tenho muito para aprender, melhorar e contribuir. Não é só sobre ter line ups com mulheres, mas mudar a estrutura do meu trabalho, dos meus negócios. O mercado aceita melhor o trabalho de mulheres hoje, não tem como comparar como o q vivi há 20 anos quando comecei. Mas ainda é uma cena predominantemente masculina, em que mulheres sofrem com diferenças de oportunidades, cachês, com objetificação. Sei que muitas conquistas vêm acontecendo, lentamente, mas ainda temos um longo caminho pela frente.

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Foto por: Jorge Alexandre | Eli Iwasa

Curol

Curol é uma mulher guerreira que não desiste de alcançar seus sonhos, mesmo com todas as barreiras que encontra no caminho. Entrou na cena eletrônica como fotógrafa e desde que assumiu sua vocação musical, Curol vem se destacando com uma sonoridade marcante, com lançamentos como “Freedom”, “Feel It” e “Marinheiro Só”, em colaboração com Pirate Snake, que saiu pela gravadora italiana Revuelta e recebeu o suporte de nomes como Don Diablo e Blasterjaxx. 

Ao perguntarmos se a artista sente pressão por servir como inspiração por ser uma DJ e produtora mulher, preta e lésbica, Curol respondeu:

Fico até lisonjeada por saber que sirvo de exemplo para encorajar outras pessoas que, assim como eu, são “fora do padrão”. É por isso que eu quis contribuir ativamente na cena eletrônica como dj e produtora com o intuito mesmo de tocar as pessoas com a minha arte que tenho enraizada desde a adolescência.

Sobre a pressão por ser mulher, preta e lésbica, infelizmente vemos muitas pessoas passando por problemas relacionados a isso em todos os segmentos. E na música eletrônica isso é realmente gritante! Presenciamos muitas situações em que outros são privilegiados por fazer muito menos do que algumas mulheres fodas e muito preto talentoso! Temos que nos esforçar e criar muito mais conteúdo se quisermos ter a mesma visibilidade.

Graças a Deus eu lido bem com isso. Ja passei por tanta coisa na minha carreira, inicialmente como fotógrafa, que acredito ja estar calejada para certas situações. O que me deixa tranquila, com a certeza que estou no caminho certo, são as mensagens que recebo de pessoas que se inspiram em mim e na minha história. Isso é um combustível para que eu continue esse meu legado.”

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Foto: Divulgação | Curol

Hugo Valle

Hugo Valle possui uma pesquisa musical que vai além do próprio House, com grandes influências do Soul, Funk, Hip Hop, R&B e Disco. Em 2016 firmou residência no Espaço It., centenária casa localizada no Bairro do Bixiga, onde apresentava seu extenso leque de referências musicais. Em São Paulo, já tocou em clubes e festas como D-Edge, Clash Club, A Lôca, Bar Obelisco, SOUL.SET entre outras.

Hugo participou de alguns workshops e palestras na Fábrica de Cultura Brasilândia com o Dj Goonie no Ateliê DJ com ensinamentos vinil Serato, Traktor e controladoras para as crianças de periferia.

“Ser DJ preto nesse país é bastante desafiador, sou um grande frequentador de festas aqui em São Paulo, e as minhas inspirações foi ver as técnicas absurdas de Dj Marky, Grace Kelly Dum, DJ Snoop e Marcio S. As primeiras festas que eu toquei, não recebia cachê e não tinha equipamento para treinar. Meu sonho era sempre ter um par de toca discos, mas meu 1º equipamento foi um par de CDJ.

Ralei bastante para participar em grandes festas, isso não aconteceu da noite para o dia, pois colei nas que eu gostava e sonhava em tocar para as pessoas ver que estava presente e até entrega cds gravados com meus sets. Com muita paciência, dedicação e empenho a grande realização é que muitas delas eu consegui tocar. Hoje tenho 10 anos de carreira e posso dizer que nós conseguimos, nós podemos, nós somos capazes….acredite em você!

Sobre a inclusão de artistas pretos na cena, acho que ainda estamos engatinhando, mas aos poucos vamos evoluindo.
Algumas festas estão colocando DJs mulheres pretas e trans que já é um grande passo, porém outras ainda mantém o padrão de beleza que o brasileiro está acostumado.

Não só isso! Quando coloca DJ preto(a) em suas festas e festivais para apresentar são sempre gringos. Por isso, que uma simples conversa que obtive com meu amigo DJ Goonie para eu participar da Fábrica de Cultura, vi que alguns acaba desistindo por conta do valor das aparelhagens, que para a periferia é surreal demais.

Sempre conversamos com esses alunos para não desistir, mas com a história de vida que eles tem e vendo ainda muito DJ branco na cena, não conseguimos reverter a situação.”

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Foto: Divulgação | Hugo Valle

Dominick

Dominick começou sua história como DJ há dois anos em Curitiba. Morando atualmente em Florianópolis, a artista trans de 31 anos encontrou na discotecagem sua paixão, tocando tribal house. Já se apresentou em festas como Victoria hauss (Brasília-DF), the box (Itajaí-SC), D’led club – (Balneário Camboriú-SC) e Festa lux (Porto Alegre-RS).

“Acredito que o maior desafio é ser aceita pelo público além do GLBTQI+, fazer com que as pessoas vejam e acreditem que podemos ser muito mais do que um objeto sexual.

Quando perguntamos se ela se sentiu mais acolhida pelo mercado com o crescimento de artistas trans na mídia e como ela se sente sendo um exemplo para outras trans que querem seguir a profissão de DJ, ela responde: “com certeza sim, me senti muito acolhida! O fato de não ser a única te abre muitas portas por não estar só e gera mais visibilidade para a classe. Ser exemplo para outras pessoas é muito gratificante e me deixa muito feliz, mas o melhor de tudo é mostrar que você pode ser o que quiser nessa vida sendo quem você é, basta querer, acreditar e principalmente correr atrás e não desistir porque a estrada não é fácil.”

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Foto: Divulgação | Dominick

Tessuto

Paulo Tessuto é DJ, produtor e o nome por trás da Carlos Capslock, uma das principais festas do movimento de contracultura de São Paulo, que vem influenciando toda uma nova geração clubber nos últimos anos, com um formato independente e underground, que conta com DJs, profissionais visuais e performers. Com 10 anos de história, a Capslock é uma festa única, libertária, que abraça o público, se tornando um lugar onde as pessoas de todas as comunidades se sintam confortáveis e bem-vindas para serem quem quiserem.

“Eu acho que as artistes da comunidade LGBTQIA+ tem tido cada vez mais espaço no mercado da música eletrônica. É muito gratificante ver cada vez mais produtores buscando por novos talentos e dando mais espaço, eu iria um pouco além e estenderia á produção também pois isso está acontecendo, também temos produtoras, atendentes de bar, caixas, etc. que são da comunidade. Acho que quem está fazendo esse tipo de trabalho mais inclusivo pode começar a semear a ideia para parceiros que ainda não tem essa prática na hora de escolher seu staff.”

Foto: Divulgação | Tessuto

Lara Music

Lara é um ótimo exemplo de que é possível se apaixonar pela carreira de DJ e a aprender as técnicas de discotecagem e produção desde criança. Com apenas 10 anos de idade e 2 anos de carreira, é atualmente a maior revelação mirim no mercado da música eletrônica nacional e já se apresentou ao lado de grandes nomes da cena, como Liu, Jørd, Almanac e Zuffo, sendo suas duas maiores apresentações o Festival Happy Drive-In, em São Paulo e o Hype Club, em Belém.

Seus sets surpreendem pelo gosto por batidas mais graves e pela espontaneidade e alto astral como comanda as pick-ups, transitando entre as vertentes da House Music e esbanjando técnica e domínio na arte da discotecagem. De olho em conquistas ainda maiores, seu foco atual está no curso de produção musical, para que seja possível criar suas próprias músicas e transmitir sua arte de forma ainda mais completa para seus ouvintes.

“Não imaginava que uma simples apresentação na escola seria o começo da minha carreira de DJ e sou muito feliz por isso! Tudo vem acontecendo muito rápido, mas procuro sempre ter os pés no chão, respeitar e aprender todos os dias. Já no primeiro ano, dividi o Line com DJS e DJanes feras do Brasil e todos sempre me ajudam com dicas, promos, e o mais legal – pedem para eu tocar e postar as tracks! Também ajudam com as minhas produções, me dando feedbacks e dicas de como posso melhorar! Também tenho o privilégio de ter grandes nomes do backstage me dando conselhos e orientações, então eu realmente me sinto apoiada e querida por todxs e isso faz toda a diferença pra mim!

Agora, o que falar dos meus pais? Eles me ajudam e me apoiam em tudo que preciso! Eles amam música eletrônica e hoje se sou o que sou (uma sementinha começando) é graças a eles.

Sobre os estudos, é desafiador sim dar conta de tudo, mas hoje com os cursos de música e as aulas da escola 100% on-line, ficou muito mais fácil eu conseguir me desenvolver e ainda deixar um espaço na agenda também para fazer outra coisas que gosto! O estudo é minha prioridade e os meus pais vão encaixando os compromissos em horários que não prejudique meu desempenho escolar. Eu amo tocar, estudar produção e fazer minha própria música. Adoro me conectar com as pessoas quando estou tocando… sinto uma energia inexplicável quando começa a minha abertura, que vem sempre com um friozinho na barriga que passa junto com a primeira track do set.”

Espero que a vacina chegue logo pra todxs, porque não vejo a hora dessa pandemia passar para voltarmos com tudo!!! SAU-DA-DES <3″

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Foto: Divulgação | Lara Music

Van Müller

Van Müller é baiana, DJ e futura producer de 34 anos que encarou os desafios de ser uma mulher nordestina dentro da cena da música eletrônica. Começou sua carreira em Salvador, acabou crescendo e sendo reconhecida dentro da cena LGBTQIA+ brasileira, sendo atualmente a única mulher residente da maior pool party gay do Brasil, a The Original Brazilian Pool Party, do Rio de Janeiro.

“Eu digo que quem nos vê brilhando nos palcos, trazendo musicalidade, perfomance e criatividade nem imagina que a nossa realidade só mudou nos últimos 5/6 Anos! A predominância masculina no nosso mercado sempre foi evidente, porém ao longo dos anos a liberdade de expressão e discussão de pautas sobre representatividade feminina trouxe consciência para os donos de clubes e festas, dando oportunidade e visibilidade para que pudéssemos fazer o nosso trabalho em qualquer momento da noite, por puro mérito, atitude e qualidade!

Nesses 11 anos de carreira eu vivi fases (bem no início da carreira) de ser taxada de incapaz de fazer um som para gays simplesmente por ser mulher ou ficar limitada aos horarios de Warm UP por acharem que mulher nao tinha braço pra conduzir uma pista no momento peak hour.

Fico muito feliz em poder falar da ascensão da mulher no nosso cenário, sendo protagonista das noites e day parties das festas, clubes e festivais. Quem já teve a oportunidade de curtir os line-ups 100% feminino sabe que não decepcionamos, o público não só lota os clubes como também criam uma atmosfera de energia tão incrivel e fazem das nossas experiencias muito inesqueciveis. Inclusive, sou grata ao público por fortalecerem e serem tão fieis ao nosso trabalho tanto nas redes sociais quanto nas festas! Eles são essenciais e o combustível para que a gente continue se dedicando ao máximo para garantir uma entrega feliz e absoluta do nosso rabalho!

Me sinto honrada por ser considerada uma referência, por poder inspirar também outras meninas e sou grata a DJs como Ana Paula, Ana Flor, Gra Ferreira e Patricinha Tribal, por exemplo, por serem precursoras desse movimento que abriu caminhos pra que eu pudesse viver dessa arte que eu tanto amo!”

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Foto: Divulgação | Van Müller

DJ Magal

O paulista José Sidnei do Prado, mais conhecido como DJ Magal, foi protagonista de grandes casas noturnas pelo Brasil desde o início da década de 80, como Madame Satã, Rose Bom Bom, Cais e Hoellisch, Columbia, Stereo, Vegas, D-Edge, Lions, Clube Jerome e é co-fundador da famosa festa Cio.

Seu senso de ousadia, vanguardismo e profunda pesquisa musical garantiram seu sucesso mesmo após 37 anos de profissão. Além de professor do Curso de Produção de Música Eletrônica da Universidade Anhembi-Morumbi há 12 anos, Magal segue atuando como DJ e é convidado para tocar nas mais importantes noites conceituais do Brasil como ODD, Capslock e Blum.

Quando questionado sobre como enxerga a evolução da cena eletrônica no Brasil, Magal afirma: “Houve um progresso expressivo na profissão ao longo destes anos. O DJ passou a ser personagem principal na cena eletrônica e se transformou numa fonte de informação musical. Essa conquista quebrou certos padrões que existiam no passado.”

Sobre possíveis conselhos para DJs que estão entrando agora na profissão, ele garante “A pesquisa e a diversidade musical são as coisas mais importantes para se ter uma carreira longínqua. O DJ que amplia seu leque musical além de se manter bem informado tem mais opções de trabalho”.

DJ
Foto: Divulgação | DJ Magal

Vale ressaltar que é impossível cobrir todos os perfis que merecem visibilidade, seja dentro da cena eletrônica ou em outros mercados, mas o que podemos aprender é a dar cada vez mais espaço para artistas que estejam fora dos padrões, para que se sintam mais acolhidos e valorizados, mostrando que o que importa é a arte, a música, e não os estereótipos.

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Administradora paranaense, morou alguns anos em São Paulo e adora as várias opções de festas e eventos que a cidade oferece. É viciada em festivais, não tem medo de encarar um sozinha! Já passou por mais de 15 fora do Brasil, como Creamfields (UK), SXSW (Austin), Coachella (CA), Ultra (Miami e Croácia) e Mysteryland (NL). Divide suas paixões musicais entre techno e indie rock!

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