Kaká Franco relembra as diferentes fases da cena eletrônica de Curitiba

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Quem conhece uma parcela da paisagem cultural de Curitiba sabe que a cidade possui uma aura especial. Hoje (desconsiderando a pandemia) a capital paranaense detém uma das cenas undergrounds mais férteis falando em música eletrônica underground, com muitos núcleos, clubs, projetos e artistas realizando um excelente trabalho e até mesmo exportando talentos para fora — vide nomes como Albuquerque, Gromma, HNQO, Aninha, Fabø, entre tantos outros.

Mas o que vemos hoje é resultado de todas as transformações que o cenário local já passou, principalmente de 1990 para cá, quando os curitibanos com topetes e piercings começavam a frequentar a noite, época em que também surgiam a maioria das casas noturnas. O melhor de tudo é que tem gente que acompanhou boa parte disso de pertinho. 

Kaká Franco é um dos DJs mais experientes da capital e, sem medo dessa afirmação, também um dos personagens mais fundamentais em manter viva a cultura da House Music e da discotecagem no Brasil. Ele é natural de Curitiba e morou praticamente sua vida inteira na cidade, com um pequeno gap entre 2008 e 2011, anos em que ficou no interior do Paraná. Sempre presente na cena local, ele percebeu que houveram bastante mudanças considerando os últimos 20 anos e conta pra gente um pouco disso logo abaixo:

“Musicalmente o movimento sempre seguiu tendências, o que acho super normal, tomando como base os finalzinho dos anos 90.  Lembro-me bem que os clubes mantinham seus DJs residentes e o gênero musical predominante era o House Garage, Speed Garage, Tribal e Acid, tudo muito misturado e essa mistura ia longe”, comenta ele, afirmando ser possível ouvir um “Puro Êxtase” do Barão Vermelho no meio dos estilos mencionados. 

Logo a seguir, Kaká viu o movimento musical se aproximando do Trance europeu e sendo logo seguido pelo House Progressivo, que se tornou por anos um dos grandes DNAs da cidade. “Tanto o Club Legends quanto a Rave Night Club impulsionaram a influência inglesa, que naquele período era o novo berço do cenário eletrônico”, conta.

Paralelamente, ele lembra que alguns grupos de amigos — quase todos de núcleos independentes — apareceram trazendo o Techno para dentro da capital e algumas festas foram ganhando força, podia-se então ouvir Detroit Techno, Acid Techno, Funky Techno e Hard Techno. “Eram as vertentes predominantes em algumas festas novas que surgiam por aqui, Big Fish, Stereo Pub, Technose, etc. até um pouco de Drum n’ bass entrou nessa”. 

O que passou a integrar a cena com o tempo era uma sonoridade mais voltada ao Electro. “A sensação era de que uma nova geração vinha com tudo, trazendo o conceito Electroclash, parecia uma fusão com tudo isso que rolava, então toda festa que eu ia, parecia ter unificado o Electro House, misturava-se com tudo, todos os núcleos e clubes”. Mesmo com essa onda, ele afirma que existia um movimento muito forte com derivados do Psicodélico e Psy trance, mas que não era algo em que participou ativamente: “sei que essa galera trouxe uma grande evolução para Curitiba falando em festivais”, destaca.

Nesse contexto, a cidade passou a ter uma gama gigantesca de clubes variados promovendo festas, logo as raves ganharam tanta força que puxou uma grande parcela desse mercado para as open airs, época em que um outro movimento começava a aparecer, o minimal. “Inicialmente era alemão e casava muito bem com o Techno, quase que ao mesmo tempo um novo Deep House também vinha à tona, muito diferente do original, porém impulsionou uma nova geração de clubbers”, conta. A partir de então, a sensação que Kaká passou a ter é que essa movimentação ficou ultra rápida e bastante pulverizada, com muitos labels, clubes e núcleos de diferentes nichos rodando. 

Outra lembrança é que o clubber, super colorido, alguns apelidados de “cybermano”, passaram a ter sucessores que só se vestem inteiramente de preto. Difícil sintetizar todos esses acontecimentos? Um pouco, mas alguns clubs ficaram marcados nessa história para Kaká, como Época, Aeroanta, Circus, Konys, Callas, Muzik loft, Kokum Kaya, Mediterrânea, Liqüe, Eon Dining, The Hall, D’vinyl, Upp e tantos outros.

Além dos muitos espaços e festas que estiveram presentes nessa transformação, hoje a cena conta com “caras novas”, RW, Inbox, Danghai, Milano, +55 e o próprio Club Vibe, que já atravessa gerações. “Somados aos novos núcleos e grandes festas, veremos e já estamos vivendo novos grandes movimentos musicais por aqui. A pandemia veio para pausar este crescimento, mas sei que quando voltar todo o ecossistema criativo da noite de Curitiba vai pulsar fortemente”.

A cena independente

Mas todo mundo sabe que (antes da pandemia) a cena ia além dos clubs e tinha muita iniciativa independente ajudando no desenvolvimento da cultura raver local, com pessoas  realmente inovando e realizando um excelente trabalho: “às vezes até digo que alguns núcleos também resgataram muitos DJs que não tinham seus espaços nos clubes”, afirma Kaká.

Na sua visão, o custo, o local, o risco, a competição e outros fatores fazem com que todos estudem os passos com cautela “é nesse foco que acabam trazendo desenvolvimento e inovação, cada um de uma forma particular. Alguns focam mais na música, outros no entretenimento, inclusão, movimento local, técnica, informação, inserção do DJ no cenário, existem muitos formatos, alguns realizam até ações filantrópicas, que sempre é muito bem visto”.

Pegando esse gancho, o DJ citou núcleos como Ohren, Radiola, Sweetuf, Laguna, Redoma, Camden, Quatro por Quatro, Morena, Odara, Subtropikal, Hideout, Alter Disco, I Love Garage, Barba Cabelo e Bigode, Fabrik e detroitbr: “me desculpem se esqueci de alguma”, brinca.

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Artistas, gravadoras e escolas musicais

Papo vai, papo vem, também caímos no assunto de DJs que estão se destacando em Curitiba em sua visão. Ele é um daqueles que, na hora da análise, tem alguns pontos como premissa, se é um bom DJ, se tem bagagem musical, técnica… “Avalio também se sabe se portar bem musicalmente dentro de qualquer momento do line up, seja abrindo a festa, tocando como principal, fazendo o encerramento ou entregando a pista pra algum headliner… dentro desses atributos eu acredito que o Traffic Jam tem sido um dos grandes destaques e merece essa atenção”, ponto para Traffic Jam!

Como todo (bom) DJ é adepto à pesquisas profundas, também indagamos se existia alguma alguma gravadora local que ele mantinha em seu radar, mesmo que não fosse focada apenas em House Music, mas no momento nenhuma faz parte da sua lista. “A minha pesquisa é muito voltada para dentro das lojas onlines que vendem disco, queria muito ver algo daqui por lá, com certeza a hora que eu cruzar alguma, é garantido que entrará no meu case”.

Quando estávamos finalizando nossa  conversa, achamos um espaço para falar de  outros projetos em atividade que são fundamentais para o desenvolvimento da cena, com as escolas de DJs. “Aimec e Yellow têm feito muitos esforços para manter toda essa chama acesa. A paixão tem que vir do DJ, é algo pessoal, porém as escolas são a grande ferramenta, ninguém quer ali inventar a roda, mas se essas atividades e iniciativas ganharem força no “ninho”, essa ferramenta será melhor e creio que o resultado tende a ser mais promissor”, finalizou.

E aí, você também lembra de algum outro momento marcante da nossa cena? Se sim, conta pra gente! 

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Tem duas paixões na vida: viagem e música. Com mais de 30 países na bagagem e muitas histórias em festivais, escolheu os cinco dias acampada na lama do Glastonbury e a mágica de trabalhar no Tomorrowland Bélgica como as experiências mais incríveis que já teve.

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